Suas mãos estavam sujas. Suas roupas maltratadas pelo tempo. Descalço caminhava pelas ruas da cidade em meio a edifícios suntuosos que contrastavam com sua condição de morador de rua. Não havia como entender porque um rapaz tão jovem e de boa aparência vivia assim...
Com fome parou na calçada esperando por alguém que passasse e então pediria ajuda. Uma moça estacionou o carro e nem percebeu a presença daquele rapaz ali, porque estava atrasada para um importante compromisso. Ela deveria prestar um depoimento no Centro de Defesa de Direitos Humanos que ficava do outro lado da rua. E enquanto pegava a pasta com documentos preocupada em registrar a denúncia, o rapaz aproximou-se e disse: _ Moça. Estou com fome! Você pode dar algum trocado para eu comprar comida?
A moça desculpou-se e disse que não tinha nenhum centavo em sua bolsa naquele momento. Mas olhou atentamente para aquele rapaz e por algum motivo teve a certeza de que ele não estava mentindo. Sentiu remorso e viu que em meio às coisas que trazia no carro havia um pacote de bolachas fechado. Ela então ofereceu a ele esperando que não recusasse e nem se importasse de comer apenas aquela bolacha... Realmente parecia faminto!
Ele aceitou, agradeceu educadamente e, antes de sair, abriu o pacote, comeu as bolachas descendo a rua com o mesmo semblante triste. Com passos rápidos ele se afastava dos olhos atentos da moça que ficou ali observando a sua situação. Por um momento ela esqueceu seu compromisso.
Parecia contraditório porque um pouco mais ela abriria um registro de abuso e violência por parte de alguma autoridade, reivindicando o cumprimento da lei. E aquele jovem sequer tinha o direito a necessidades básicas como alimentação, segurança e moradia. Engajada em causas sociais, participante de uma instituição religiosa e educadora comprometida, o coração daquela moça clamava por justiça. Mas naquele momento nenhuma lei era suficientemente boa para prover para aquele rapaz à dignidade humana que ele não tinha e tanto precisava.
Antes que ele desaparecesse por completo de sua visão, ela gritou por ele que olhou para traz atendendo ao seu chamado. Então abriu o carro, pegou uma bíblia de uma pilha de livros, correu até o desconhecido e lhe disse:
_ “Moço, eu não tenho muita coisa nesta vida, mas o melhor que eu tenho eu quero lhe dar”... E mostrou a ele o livro sagrado perguntando: _ Você aceita? E se aceitar, você me promete que não vai jogar fora nem rasgar as suas páginas para usar drogas?
O jovem olhou para ela e emocionado respondeu: _ ”Moça, se você me der este livro, eu prometo que lavo as minhas mãos para tocar nele e abri-lo”. E assim ele agradeceu e desceu a rua com a Bíblia abraçada em seu peito.
A moça seguiu para o seu compromisso e nunca mais viu aquele rapaz. E ela acredita que talvez um dia, num mundo mais justo do que este, quem sabe no céu, ela possa reencontrá-lo salvo, seguro e feliz.
“Estão chegando os dias”, declara o Senhor, o Soberano, “em que enviarei fome a toda esta terra; não fome de comida nem sede de água, mas fome e sede de ouvir as palavras do Senhor. (Amós 8:11)

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